16 de novembro de 2017

Dia 8: Ampelmännchen

Na Berlim de hoje já não se notam as divisões Oeste/Leste. O Muro vende-se em pedacinhos falsos em porta-chaves e ímanes para o frigorífico, os checkpoints são peças de cenário e, desta vez, vi apenas e só um único Trabant a circular em modo turístico na rotunda atrás da Porta de Brandenburgo. Há, no entanto, algo tipicamente evocativo da ex-DDR, a ex-Alemanha de Leste, a que, ironicamente, se chamava República Democrática Alemã numa alegoria vã e sarcástica à democracia: os Ampelmännchen (os homenzinhos dos semáforos).
A divisão das Alemanhas era tão conspícua que até em algo tão inócuo como os semáforos havia uma distinção. No Leste eram uns "homenzinhos" de narizinho arrebitado, compostamente vestidos, com um chapéuzinho e sapatinhos nos pés, prontinhos a parar ou a avançar. Já não se vêem muitos. Tal como o Muro, são hoje relíquias feitas porta-chaves e ímanes para frigoríficos. Caminho pelas ruas e chamo a atenção do meu marido para estes pequenos pormenores que me lembram outros e mais outros e outros e assim lhe vou dizendo de mim, de eu/nós e de eu/eles.


13 de novembro de 2017

Dia 7: Good Bye Lenin!

Há um filme alemão de 2003 que adoro e que reflecte o pós-queda do Muro. Chama-se "Good Bye Lenin" (não sei o título em Português) e vem-me à memória agora que estou aqui nesta fancaria em que se tornou Checkpoint Charlie. O filme é uma comédia (coisa pouco associada aos alemães mas dêem-lhes o benefício da dúvida e verão como também conseguem ser cómicos) e tem como história uma mulher, profundamente devota dos ideais comunistas e que entra em coma acordando depois de o Muro ter caído e a Alemanha se ter reunificado. Ora, quando a senhora acorda, os médicos aconselham a família a evitar que a dita cuja sofra perturbações emocionais e os filhos vão passar por todas as peripécias para evitarem que a mãe descubra que acordou em plena sociedade consumista ocidental.
Ora, vem-me o filme à memória ao ver esta encenação parva de Checkpoint Charlie rodeada de McDonalds e de todas as marcas distintivas do Ocidente consumista que o Leste odiava. Na verdade, nada como o passar do tempo e o caminhar da História para relativizarmos o passado que, mesmo assim, eu considero não dever ser relativizado. Enfim, o Hegel nunca nos conseguiu ensinar que a única coisa que a História mostra é que não aprendemos com a História.
Entro numa Dussmann (a espécie de Fnac de Berlim) com o meu marido e trazemos o DVD Deluxe Edition de "Good Bye Lenin". Acho que hoje ele compreendeu parte da alma desta cidade (e da minha também)...

10 de novembro de 2017

Dia 7: Checkpoint Charlie

Turismo puro e duro. Hoje, quase trinta anos depois, é difícil lembrar que Berlim foi uma capital dividida e exemplo maior da Guerra Fria. Porém, nós que a vivemos em directo e ao vivo, dificilmente esquecemos como era o medo. Havia medo. Havia tensão. E havia, creio que mais do que medo e tensão, um rancor abafado pelo medo e pela tensão. Hoje, a memória desses dias é um enfeite para turista ver. Vejo os turistas a tirar retratos e selfies em Checkpoint Charlie, vejo a cara do soldado americano no poster que diz estarmos a sair do sector americano da Berlim dividida e penso como todo aquele sofrimento, o medo, a tensão e o rancor não valem nada perante selfies e turistas.
Imagino também o que irá na cabeça do meu marido enquanto vira e revira o checkpoint encenado para turista ver, uma quase instalação de arte. Sim, se não fosse um emblema histórico, o modo como Checkpoint Charlie está recriado poderia ser uma instalação da Joana Vasconcelos. é-me difícil estar ali a pensar nisto porque eu sei o que foi a divisão de Berlim. Penso no maravilhoso que é estar ali em liberdade e paz. Penso no irónico e espectacular que é Checkpoint Charlie estar reduzido a curiosidade histórica. Mas depois penso na banalização que se está a dar a algo monstruoso. Penso nas minhas tias que tiveram de fugir da ocupação. Penso nos mortos, no medo, na tensão e no rancor por um povo, um país dividido e a infâmia que aí levou. Penso em coisas de horror. Penso que era no bunker da nossa casa que eu brincava porque as casas tinham bunkers. Penso no horror da guerra e como ela é tão banal, mas tão banal hoje-em-dia que não nos apercebemos de quão próxima ela está. Penso que não nos deveríamos esquecer de Checkpoint Charlie no que ele significa de opressão à liberdade dos povos e à paz mundial. E atravesso para o sector soviético onde outra cara de soldado nos recebe com a mesma impassividade às selfies e aos turistas.

5 de novembro de 2017

Dia 7: Bolos e Sekt

Depois de almoçarmos e passearmos no jardim, passamos pela Rabien, uma pastelaria icónica mas longe do icónico para turista. Levamos bolos de frutas e chocolates de que eu tenho sempre saudades portuguesas quando estou em Portugal. Também levo bolos de Natal porque Natal que é natal tem de ter bolos alemães por muito boas que sejam, e são, as filhoses, as broas castelar e os sonhos portugueses. Claro que comerei os bolos natalícios antes do Natal...
Lanchamos como eu toda a vida vi a Mãe lanchar e como só lancho aqui: café moca com natas, Sahne como sempre e só ouvi a Mãe dizer, e os bolos também acompanhados de natas. Revivo a vida e partilho o passado com o meu marido. O que eu queria que ele me conhecesse aqui. O que eu queria que ele nos conhecesse. Faço desta viagem uma espécie de rito iniciático que o faça entrar no nosso mundo, nosso de alemães. Quero torná-lo um de nós também, sabendo que é possível repartir o coração por dois países. É possível, sim, perfeitamente possível.
De vez em quando olho para o meu marido a tentar perceber-lhe reacções a este dia e ao conhecimento de nós. Sossego-me em alegria porque o vejo em sorriso constante e o sinto à vontade e alegre na nossa companhia. Brindamos com Sekt. Rimos. A outra sobrinha da minha Tia leva-me a passear na pequena floresta onde se situa a casa da minha Tia numa destas residências assistidas de primeiro mundo. Fala-me da mudança da Tia para esta casa, de como está contente a Tia por aqui estar e de outras coisas de família e que só a nós interessam. Para a semana vão para Brandenburg, o estado que circunda Berlin e de onde é originária a minha Tia. Depois de o Muro cair, conseguiram comprar a casa em que a Tia cresceu e ela gosta de regressar de vez em quando às origens. Teve de abandoná-las quando chegaram os russos mas isso agora é passado, embora presente.
Reentramos em casa e encontro o meu marido recostado na poltrona falando com o marido da outra sobrinha da minha Tia, o qual vai traduzindo a conversa a três. O meu coração enche-se de felicidade.

3 de novembro de 2017

Dia 7: 100% alemã(?)

Quando a minha Tia me abre a porta e me abraça como só ela me sabe abraçar volto atrás no tempo. Instantâneos de vida passam-me pela alma, pelos olhos e pelo coração. Que saudades tão portuguesas eu tinha da minha Tia tão alemã. Conheço-a desde sempre e ela conheceu-me primeiro do que eu me conheci. Depois da morte da Mãe, as três pessoas que restaram com conhecimento de mim mais velho do que eu foram o meu pai, a minha Tia Henny e a minha Tia Ruth. A Tante Henny morreu vai para quatro anos. Sobra-me apenas o pai em Portugal e a Tante Ruth na Alemanha. Só me restam estes dois cordões umbilicais que me ligam a um tempo anterior a mim.
Não consigo explicar o que esta Tia significa para mim. Quando a Mãe adoeceu vim à Alemanha ter com as Tias em busca de consolo e conselhos. A Tante Ruth fez Rote Grütze (uma sobremesa de frutos vermelhos e minha preferida) e acolheu-me com Sekt, o champanhe alemão. Sentou-me à mesa e brindámos à vida. Depois escreveu num papel "In zeitdichten Schotten denken" que era a máxima de vida da Tante Henny (Pensar por compartimentos). Dobrou o papelinho e colocou-o na palma da mão fechando-ma sobre ele e fazendo-me prometer que eu iria viver assim. Prometi. Vivi e vivo. Guardo o papelinho como um tesouro. O melhor conselho que alguma vez recebi.
Quando nos desabraçamos vejo que pôs a mesa. Noventa anos ainda activos. Minha querida e adorada Tia. Empatiza com o meu marido no imediato e ele com ela. Nunca aqui trouxe a minha vida anterior a este casamento. sabia que aquilo era um não-casamento e não conspurquei esta parte de mim trazendo-o cá.
Vamos ao Parque de Stieglitz, longe das multidões de turistas, e almoçamos na esplanada de um restaurante suíço de amigos da outra sobrinha da minha Tia, que é mais velha do que eu quase trinta anos e que foi criada pela minha Tia quando os pais morreram num passado que nunca conseguimos esquecer. À mesa falamos da era em que vivemos, do medo que temos do esquecimento colectivo, das ondas ameaçadoras que se levantam por todo o lado. Falamos da intolerância, da agressividade e falamos de esperança. Se tenho medo da morte física da Tante Ruth, também tenho medo da morte dela pelo que ela tem de geracional. Estamos a perder a geração com memória e vivência da Guerra. Assusta-me que o mundo se esqueça.
Falamos do passado. Falamos de viagens, das aventuras da Tia, que só e somente tem o alemão por língua, e foi ao Uganda e à Líbia sozinha e sem tradutores em épocas de guerras-frias. Amo-a. Passeamos pelas alamedas do parque de Stieglitz num dia de sol maravilhoso. Deixo-me fotografar com ela. Passeio com ela de braço dado. Esqueço-me de falar português com o meu marido e falo-lhe no alemão que se me ressuscita no contacto com a minha Tia. Ele olha-me em sorriso e percebe que a linguagem dos afectos é universal mesmo que o verbo que eu use neste dia seja o da minha primeira língua. Estou feliz de felicidade...