26 de maio de 2018

Augsburg: Die Fuggerei

Foi em Augsburg que se começaram as primeiras experiências no campo do que hoje chamamos habitação social. A família Fugger, liderada por Jakob Fugger, fez um bairro inteiro de casas com rendas acessíveis que fossem um ponto de passagem para quem encontrasse dificuldades na vida. O incentivo não era que as famílias por lá ficassem para sempre. Ao invés, o objectivo era prestar auxílio a quem, por doença, desemprego, ou uma qualquer fatalidade, se visse desprovido de sustento ou o tivesse comprometido. Criou-se, assim, a Fuggerei que ainda hoje está activa e tem os seus residentes, na sua maioria pensionistas de baixos rendimentos que pagam à Fundação dos Fugger uma renda simbólica. Nós, os turistas voyeurs podemos passear-nos pelas ruas do bairro, visitar os apartamentos-modelo, os antigos e os modernos, ver o museu e um bunker da II Guerra. Há entretenimento para uma tarde inteira. No entanto, o que daqui levo é que o homem mais rico do mundo usou parte da sua fortuna benemeritamente, não na caridadezinha que apenas dá dinheiro paliativo mas no auxílio a que os desafortunados se voltassem a erguer e a elevar das circunstâncias negativas que a Vida lhes tivesse atirado.
Noto, num relógio de sol, a frase "Nütze de Zeit" que quer dizer "Aproveita o Tempo" e é isso mesmo. Temos o direito e, talvez sobretudo, o dever de aproveitar o tempo para dele e com ele fazermos algo proveitoso das nossas vidas. A Fuggerei era uma passagem de dignidade perante a adversidade, uma esperança de dias melhores conseguidos através do esforço e da dedicação ao arranjo das nossas vidas. Olhando para a minha própria Vida, dá para pensar que nenhum tombo vale a nossa derrota.

23 de maio de 2018

Augsburg: Palácio Schaezler e os Grandes Mestres

Estou entusiasmada por trazer o meu marido ao Palácio Schaezler, um pequeno palacete a meio da Maximilianstrasse, a rua principal da cidade. O palácio, de fachada tão singela que facilmente passa despercebido, é famoso pela sua sala barroca, uma extravagância rococó que nos deixa a cabeça à roda. Temos uma sorte danada. No momento em que vamos visitar a sala ela está fechada para a produção fotográfica de um casamento que vai ter o copo-de-água nos jardins do palácio, onde outros noivos diferentes também fazem as suas poses para mais tarde recordar. O responsável pela sala, um senhor a rondar a sua sétima década de existência, deixa-nos entrar, falando num alemão suábio que mal percebo. Conta-me a história do palácio e a data do primeiro baile no salão. Respondo e aceno com a cabeça em sinais de entendimento e sorrio. Deve achar-me simpática e deixa-nos entrar. Um luxo ter a sala toda para nós só com os noivos ao fundo que, bem vistas as coisas, até se tornam um aspecto pitoresco que levamos desta visita. Por acaso miraculoso, o palácio foi poupado durante os raides aliados. Que trágico, como trágica foi tanta coisa, se este emblema do rococó tivesse sido escaqueirado pela estupidez da guerra que nos desumaniza e com a qual nunca aprendemos.
O meu marido pergunta-me o que tanto falava eu com o segurança que estava à entrada do salão. Explico a pinceladas largas o que acho que ele me terá dito e confesso que metade da informação me passou ao lado. Por esta altura da viagem, o meu marido já há muito que entendeu que o alemão é uma língua um bocado mitificada que não tem, de todo, a universalidade que lhe atribuímos no denominado mundo germânico. Deixamos a extravagância barroca e vamos ver o museu de pintura que o palácio alberga. A perspectiva de contemplar cara-a-cara autênticos Holbein, Cranach e Dürer é por demais aliciante.
É em momentos como este, em que tenho perante os olhos um algo qualquer de importância para o mundo ou para a Humanidade, que me dou plena consciência dos meus privilégios e agradeço a vida que me trouxe até este instante. A humildade ante a grandeza, e não tanto ante a grandiosidade embora haja grandeza grandiosa, faz-nos apreciar o momento, interiorizá-lo e torná-lo indelével na nossa alma imortal. Um retrato de Jakob Fugger pintado por Albrecht Dürer, quiçá um dos mais famosos retratos do mundo, cenas bíblicas de um Hans Holbein, o Velho ou um "Sansão e Dalila" de um Lucas Cranach, o Velho enchem-me de admiração e honra. Detenho-me e demoro-me pois volto a ser a miúda das trancinhas louras que desfolhava livros e via documentários sonhando com o dia de ser grande e ir em busca das imagens dos livros e dos documentários. Acho que já é grande...

20 de maio de 2018

Augsburg

Vir à Baviera e não vir a Augsburg é um pecado. Fazer a Estrada Romântica sem passar por aqui é uma impossibilidade e, quem no seu imperfeito juízo o fizesse, teria, julgo, bilhete directo para os quintos dos infernos da ignomínia. Augsburg é das cidades mais antigas na Alemanha e, como o nome deixa antever, uma cidade fundada pelos Romanos como Augusta Vindelicorum em honra ao imperador Augusto. Augusta será, na verdade, um justo epíteto para esta cidade de que tanto há a falar. Tanto que nem sei por onde começar.
Respira-se cultura e história a cada passo que se dê. Augsburg é a cidade-natal do pai de Mozart, de Bertolt Brecht, dos Holbein pintores, dos Fugger (os Médicis do Norte) e, pasme-se, do Wolf Blitzer, o jornalista e pivot da CNN. É uma cidade que me lembra Viena, até no facto de ter, como aquela, um emaranhado tal de cabos eléctricos para os eléctricos (valha-me o pleonasmo) que qualquer fotografia exterior sai uma catástrofe.
Augsburg convida ao passeio demorado e à descoberta do pormenor escondido à vista de todos. É uma cidade simpática, acolhedora, de avenidas largas e amistosa para o peão. Ao Sábado vêem-se noivas por toda a parte já que por toda a parte há sítios apropriados à fotografia perfeita: palácios de portas abertas e salas barrocas, fontes, igrejas de todas as confissões, largos monumentais e praças onde se juntam músicos e grupos corais. Simpatia é, decididamente, um sentimento que esta cidade convoca.

16 de maio de 2018

Harburg: "O" Castelo

A Estrada Romântica não se faz só de cidades de postal ilustrado. Emolduram-na muitos e variados castelos: de encantar, assombrados e castelos, diria, draculeanos. Harburg responde a toda esta lista, especialmente num dia de brumas como este em que o visitamos. Perdem-se na mais longínqua Idade Média as origens deste castelo altivo e altaneiro e penso que o ar fascinante e misterioso que tem se deve a ter sido miraculosamente poupado dos bombardeamentos da II Guerra Mundial. Raros são os monumentos alemães que não tenham sido arrasados e que, hoje, mais não sejam do que fiéis reconstruções. Olhando cá de baixo sentimo-nos ínfimos e ligeiramente menorizados. Há ali uma aura qualquer que nos aprisiona em respeitosa contemplação.
Lá dentro, a porta levadiça, os crânios de lobo pregados nas paredes exteriores e as linhas pesadas das torres e muralhas lembram os castelos dos Senhores do Norte da Guerra dos Tronos. A imponência rude foi feita para amedrontar. Não é propriamente bonito, é carismático. Não vive da beleza mas do carácter. Vale a pena subir ao cimo do cume só para sermos transportados numa viagem atrás no tempo. É impossível que a mente não nos fuja para imagens de caçadas, cavaleiros em armadura, som de cascos no empedrado. Partidas para a guerra e regressos de batalhas.
O castelo pertence à Casa Wallerstein, uma das famílias aristocratas mais antigas da Alemanha, e, por isso, está em mãos privadas. Aliás, há ainda uma forte aristocracia neste país republicano, ou seja, nem todos os castelos e palácios foram "nacionalizados" com a instauração do regime anti-monárquico. Os duques de Oettingen-Wallerstein residem no Castelo de Wallerstein, raramente aberto ao público, e detêm também o Castelo de Baldern. Curiosamente, ao Castelo de Harburg não lhe chamam castelo. Tratam-no como individualidade por si própria e, assim, é somente "Die Harburg", "O Harburg". Isto é o que se chama ter personalidade.

12 de maio de 2018

Donauwörth: não conheço o meu marido...

Sendo uma estrada, e aí vem pleonasmo, a Estrada Romântica é uma sucessão de cidades. A seguinte no nosso cardápio é Donauwörth que, sendo uma gema, deve ser daquelas cidades coitadinhas que, ao cabo de tanta cidadezinha pitoresca, deixam de constar na memória do viajante. Uma pena. É, como todas as cidades aqui, caracterizada pelas casas coloridas de telhados a pique, igrejas imponentes e letreiros de hotéis e restaurantes que nos fartamos de fotografar como quem faz uma colecção. Icónica em Donauwörth, a rua principal, a Reichsstrasse (literalmente "Rua Rica"). Percebe-se facilmente porquê. Larga. Ladeada de edifícios de vários pisos. Comercial. Mesmo a uma hora morta, como aquela em que a percorremos, tem uma atmosfera viva. Dá prazer deter o passo. Tal como dá prazer levantar a cabeça para ver as singularidades que se exibem nas paredes das casas.
O meu marido perde-se em admiração por uns sinos à volta do relógio da Câmara. De nariz no ar, nem se apercebe que está no meio da rua. Corrijo, está especado em plena via de trânsito, ali em cima do alcatrão. Já lhe expliquei um cento de vezes como deve atravessar uma rua na Alemanha. Passadeira: sempre. Respeito pelos sinais: sempre. E ali está ele como se nada fosse a tirar retratos aos sinos.
- Não vem carro nenhum - oiço-o dizer na rua vazia. Nem respondo.
Vem um autocarro. Claro, os autocarros circulam na via a eles designada e claro, uma rua só está vazia até chegar o próximo veículo. A via onde, presentemente, o meu rico marido faz poiso a contemplar as vistas é para os carros não para os peões incautos. Oiço buzinar. Viro as costas à cena. Uma buzinadela por estas partes só significa uma coisa: fúria. Um transeunte sobe a rua na minha direcção e vê o horror que se desenrola perante os seus olhos: um idiota qualquer está no meio da estrada. Olha para mim, em busca de aprovação e diz mesmo "Idiota" ao idiota que está a empecilhar o trânsito. Confirmo com um encolher de ombros que sim que aquilo ali era um idiota e continuo a andar esperando que o meu marido não se lembre de chamar por mim. Neste momento, não conheço o meu marido...

9 de maio de 2018

Nördlingen: um meteorito e diamantes

Nördlingen é outra das imprescindíveis cidades da Estrada Romântica. Com Rothenburg e Dinkelsbühl são as únicas três que ainda têm uma muralha intacta à volta da cidadela histórica. Nördlingen, outro nome cuja sonoridade adoro, tem uma particularidade: está construída na cratera de impacto da queda de um meteorito. Quando o meteorito (que, parece, era binário) aqui se esmigalhou, algures no Mioceno, ou seja, depois dos dinossauros e antes do Australopitecus, vulgo, uma coisa recente, formaram-se rochas de impacto cravejadinhas de diamantes. Resultado, as casas em Nördlingen e a igreja estão feitas em pedra com diamantes incrustados. Pelos vistos, o meteorito colidiu com um depósito de grafite e todos nos lembramos, das aulas de Ciências, que carbono, pressão e altas temperaturas resultam em "a girl's best friends". Não deve haver muitas cidades no mundo com uma curiosidade destas no currículo.
Subindo à muralha, damos a volta ao perímetro da cidade para depois descermos e nos perdermos nas ruazinhas que levam até ao centro onde está a Igreja de São Jorge, a tal feita com pedras cheias de diamantes e quartzo, e que não percebo porque se chama "Daniel". Enfim, deve ser outra das curiosidades desta curiosa cidade.
  

5 de maio de 2018

Dinkelsbühl debaixo de chuva

Depois do encantamento em Rothenburg, a próxima paragem na Estrada Romântica é Dinkelsbühl. Adoro o nome. O céu ameaça desabar mas o que é uma carga de água quando estamos felizes à descoberta?
Nunca aqui estive e, por isso, e contrariamente ao que sucedeu com Würzburg e Rothenburg, não venho aqui para mostrar o pitoresco da cidade ao meu marido. Venho descobri-la com ele e, nisso, estamos em paridade. Agrada-me a sensação da descoberta a dois porque, até agora nesta viagem, tenho desempenhado um papel de guia, de insider que lhe quer mostrar o seu passado e dar-lhe a conhecer espaços de certa forma familiares. Neste momento, sei tanto como ele sobre Dinkelsbühl. Dou-lhe a mão, ou dá-ma ele a mim e descemos abraçados a rua principal maravilhando-nos com as casas típicas coloridas e decoradas com desenhos nostálgicos de um passado pré-moderno e modernizado.
Os pingos começam a cair. Grossos. Primeiro espaçados até que se cerram em aguaceiro intenso que tudo lava. Recolho-me a uma papelaria a comprar uns postais ou uns ímanes para o frigorífico, os únicos souvenirs que hoje-em-dia levo das minhas viagens, excepcionando as decorações natalícias em Rothenburg que, a meu ver, não encaixam bem na definição genérica de souvenir. Já lá vai o tempo em que, percorrendo o mundo, chegava carregada de artesanatos, jóias e bugigangas de toda a sorte de feitio. Já não. Perdi essa voracidade (e já não tenho mais paredes nuas e prateleiras livres em casa para a exposição dessas conquistas). Agora bastam-me uns ímanes para a porta do frigorífico (que vai ficando sem espaço, confesso) e ficam as recordações materiais feitas.
Na papelaria, atende-me um senhor a sair da meia-idade. Queixo-me do tempo mas ele diz que não há problema. O sol vai regressar... para o ano. Traduzo para o meu marido que ignora o porquê do nosso riso. Sim, o sol regressa sempre.
Pago os postais e os ímanes e regressamos à chuva da rua. Pensando bem, é melhor rendermo-nos à evidência de que este tempo não está para passeios a pé e vemos o resto da cidade a partir do conforto do carro. Pode ser que regressemos um dia em que esteja sol.