20 de abril de 2017

Dia 17: Tempo de regressar

Dezassete dias depois de chegar a esta terra de contrastes é tempo de regressar. Engraçado como os contrastes da terra proporcionam os contrastes na vida. Em dezassete dias parece que vi o mundo inteiro. Percorri desertos e estradas, vi gentes, vi nadas. Engolfaram-me tempestades, tive encontros e desencontros com as autoridades da terra, calor, chuva e frio foram as estações, desci às entranhas da terra e subi a cumes de montanhas, vi o tempo esculpido na rocha e o tempo esculpido pelo Homem Antigo, vi o moderno e o kitsch, o velho e o espiritual, conversei com o vento e comigo. Fiz a estrada. Casei na cidade perdida às escondidas e por entre Amor. Chego ao aeroporto e é um sinal de "Welcome" que me diz adeus. Confundem-me com uma actriz conhecida, negam que eu não seja ela e perseguem-me por eu ser ela. Rio. Abraço o futuro novo e velho que me aguarda ao cabo deste interregno.
Regresso feliz à Vida que me espera.

17 de abril de 2017

Dia 16: Pulo à Califórnia e regresso ao Nevada

O passeio pela vastidão leva-me à Califórnia que não é só a Hollywood dos filmes ou a gigantesca Los Angeles e a icónica São Francisco. A Califórnia é a continuação do deserto e das grandes imensidões contidas neste pleonasmo.
Uma fuga breve que me leva a entrar fronteira adentro na Califórnia também me trará de regresso ao Nevada e a Las Vegas onde assentei poiso por estes dias. E a reentrada no Nevada tem a monumentalidade kitsch associada a um estado onde o que interessa para o mundo é apenas, e só, Las Vegas. É assim que me vejo em Primm, auto-proclamado outlet de Las Vegas, a entrada no Nevada como quem vem da Califórnia pela Interstate 15.
Parece mais um parque temático do que uma localidade. É ambos. É o kitsch a esteróides, o prenúncio da loucura de Vegas. Pergunto-me quem é que aqui vem veranear, porque há aqui montes de resorts, porque aqui encontro matrículas vindas de todos os estados e mais alguns, até de Nova Iorque, tão distante na outra costa! Refreio o pensamento na certeza de que há gostos para tudo e porque, afinal, eu também vim casar a Vegas e, por isso, também entrei no rol destes turismos de massas fascinadas pelo kitsch por muito que eu me ache diferente. Não me detenho aqui mais do que a meia hora para o olhar pasmado e regresso ao coração do Nevada onde me aguarda um hotel elegante fora da Strip e um balde com garrafas de champanhe que sobraram do meu casamento...

10 de abril de 2017

Dia 16: Uma luz no deserto

À distância parecia uma coisa de Ficheiros Secretos. Percebe-se como é que num país de vastidões, a mente colectiva se assole com episódios de OVNIS e alienígenas. Um ponto de luz sem explicação e a curiosidade para saber o que a emanava. Muitos e vários quilómetros depois percebe-se a razão do ofuscamento: uma quinta de painéis solares no desterro do nada envolvente. É assim uma roadtrip, o percurso a revelação, a descoberta de inesperados.

6 de abril de 2017

Dia 16: Nelson, Nevada

A wedding planner que me tratou do casamento disse que, além de Vegas, um local muito popular para casamentos é Nelson, a uma hora fora de Las Vegas. Que é muito pitoresco, que muitos casais lá fazem fotos giríssimas e que seria um bom passeio para darmos. Sigo o conselho e, neste dia depois de casar, dou comigo a ir a um sítio dito pitoresco onde fazem casamentos que dão fotos giríssimas. O sítio dá pelo nome de Nelson e imagino de onde terá vindo semelhante denominação. Nelson?!
Lá vou. Perco-me no El Dorado Canyon. Encontro minas e aldeias perdidas e nada de Nelson, muito menos um Nelson pitoresco e bom para fotos giríssimas. Estou mesmo, mesmo a desistir quando se vislumbra um aglomerado de casas e, já que aqui estamos, what the hell e vamos lá ver. É Nelson.
E o que é que é Nelson? É uma espécie de hotel com um ferro-velho de Americana (a memorabilia do passado dos Estados Unidos) à volta. Como é que um sítio destes pode vir credenciado no mapa como localidade é que me pasma. Barracões corroídos, carros enferrujados, trastes e trastinhos, velharias a céu aberto e... até um avião despenhado onde muitos casais posam para fotos giríssimas e pitorescas (or so they say).
Fujo. E fujo contente. Na pimbalhice envolvente de Vegas e Nelson, o meu casamento foi um acto de elegância. Deus me livre de me ver noiva em cima de um avião caído! Cruzes que há gostos para tudo!

3 de abril de 2017

Dia 16: Fora da Strip em Las Vegas

A bem dizer, a Las Vegas megalómana dos casinos e dos turistas é a Las Vegas da Strip, uma rua/avenida com umas quantas milhas de extensão e o resto é paisagem (nem sempre agradável ao olho). Não gosto propriamente de Vegas. Aliás, a primeira vez que cá vim abominei o sítio jurando nunca mais voltar (sim, eu também tinha jurando nunca mais casar e, juntando dois juramentos quebrados, voltei a Las Vegas e casei em Las Vegas, a Vida tem umas ironias engraçadas).
Fujo da Strip e, lembrando-me de, no ano passado, ter ido de propósito a Alexandria, Louisiana, à procura dos Cajun Pawn Stars, o programa do Canal História, fui, agora, à procura da série original que, justamente, se passa aqui em Vegas: Pawn Stars.
Encontrei. Vi. Está visto. O Rick e os boys não estavam, ou será que estavam? Dou uma vista de olhos à loja transformada em loja de merchandising da série e vou-me embora. Ainda me perguntam como é que eu, com uma matrícula do Texas, ali estou. Explico apenas para, mais uma vez, ouvir um espantado e quase histérico:
- Really?! That's awesome!!

Fui! Bye Rick! Bye guys!

27 de março de 2017

Dia 16: E depois de casar?

Acordo num dia estupendo. Na mente um único pensamento isolado que é um todo: casei no inesperado. Pensei que não ia ligar nenhuma a semelhante ocorrência, que estava acima de sensações, que tudo seguiria igual porque eu estaria igual e eu me sentiria igual. Não é bem assim. Nesta manhã acordo a pensar em ontem e no que ontem me terá mudado para eu me sentir assim feliz, não o feliz por estar a viajar, mas o feliz por estar a viver. Acho que, finalmente, terei morto fantasmas e desacorrentado grilhões. Há uma estranha, porque a não reconheço, leveza que me cerca e que me faz querer viver e começar a estrada que, afinal, e só por causa de ontem, me é nova. Como é que eu cheguei aqui? Sei e não sei e já não me interessa saber. Cheguei e sem saber que aqui alguma vez chegaria, Aqui é onde eu sempre quis chegar.
Estou mais feliz hoje do que ontem porque hoje é o depois da curva e a paisagem neste depois é infinitamente bela e cheia de promessas de descoberta. Ontem vislumbrava a curva sem saber o que estaria depois. Agora já sei e não tem os temores que eu receei, não é o igual ao de sempre, não é nada do que eu pensava, é uma coisa nova e desassombrada. Que eu Aqui esteja é o absoluto.
Meses depois o homem que me fez casar dirá destes dias numa cidade sem alma "surreal quality Vegas" e é isso: surreal. Porém, real, o meu real.

20 de março de 2017

Dia 15: O bom de casar em Vegas

Tirando duas pessoas em Portugal e duas nos Estados Unidos, uma destas últimas a que me tomou a decisão de eu me casar, ninguém sabia que eu ia fazer uma coisa destas. Aliás, já a viagem estava marcada e nem eu sabia que ia casar (pois sim, eu casar?! só se estivesse doida varrida e chalupa! jamais!, prometido a pés juntos. nunca!). Não é surpreendente a vida?
O email chegou num dia banal: "Devias casar", dizia enquanto acrescentava, "irei a qualquer lugar no mundo to give you away". Fechei o email. Marquei não lido e esperei que o tempo me dissesse algo. Casar estava-me na gaveta fechada do nunca mais. Só que eu amo e respeito (talvez até o tenha num pedestal) o homem me enviou o email e não o queria desapontar. Engraçada esta coisa de casar para não desapontar terceiros. E onde estava nesta equação estranha o homem com quem me diziam para casar? O homem com quem agora me diziam para casar dar-me-ia a liberdade do não e do sim. Já me tinha dado a liberdade do não. Um não por cada anel que me deu quando me pedia sim. Três. Deixei o coração falar com a mente para trocarem ideias sobre aquele mail. Talvez chegassem a um entendimento
"Ok, caso," respondi ao email. "Passo por Las Vegas e se quiseres vem lá ter comigo para me levares ao altar." E foi assim que decidi o meu novo casamento na condição de nada ter a ver com o primeiro e, já agora, e porque seria em Vegas, que não fosse o Elvis a casar-me numa pimbalhice qualquer sem graça e elegância porque eu tenho alergia às coisas sem graça e elegância.
Contratei uma wedding planner e disse-lhe que preparasse tudo para que o tudo estivesse pronto à minha espera quando eu chegasse para o grande momento. Não queria chatices, não queria pensar que me ia casar. No dia antes de embarcar para a América comprei um mini-vestido tipo Jackie O e levei o colar da Mãe, o colar dos anos sessenta que lhe assentava tão bem e que calhava bem com o vestido.
Casei sob um belvedere de verduras plásticas à sombra de 45ºC e aspersores refrescantes. Quem me enviou o mail levou-me ao altar e escolheu a música de entrada, se era para "give me away" pois que o fizesse em pleno, que escolhesse a música e me libertasse das chatices de preparar o meu próprio casamento, pois essas eu não as queria. não, nunca e jamais! No público apenas a wedding planner que chorou a rodos por chorar sempre em casamentos. Entrámos de braço dado ao som da música que ele escolheu. Deu-me ao homem bom, de olhos mansos e coração paciente que me recebeu. Em cinco minutos o sim pronunciado "Yes, I do" e a audição, como num filme, do clássico "By the power invested in me by the State of Nevada, I pronounce you husband and wife". "Wife..." Bateu fundo. Olho para o homem a que a lei daquela terra estrangeira me faz marido e percebo o que fiz. Aterro na minha vida e reparo que sou infinitamente feliz.
Chego ao hotel, onde ninguém sabia que eu ia casar e há champanhe e morangos com chocolate e uma carta da gerência escrita à mão a dizer como descobriram que eu ia casar. Isto só mesmo em Las Vegas, penso.
O bom de casar em Vegas? Para mim, foi o bom de um dia feliz, o primeiro, por fim, da minha vida. Não quis casar. Não fiz nada para me casar. Pensaram por mim que eu haveria de casar e eu casei. No sítio mais insuspeito no mundo, perante as testemunhas mais insuspeitas no mundo, o casamento mais insuspeito do mundo. Isto só mesmo em Las Vegas ou, então, isto só mesmo numa vida feliz...