22 de maio de 2017

Ávila

Ávila é pesada. Campeã das cidades muralhadas, detém o recorde de ter as muralhas com maior comprimento entre as cidades fortificadas. Talvez por isso a UNESCO lhe tenha dado o estatuto de Património da Humanidade. Impressiona sim mas não encanta. É o peso descomunal da pedra granítica e a opressão do círculo fechado que alberga uma catedral igualmente pesada de pedra cinzenta feita apenas para a imponência e não para o deslumbre.
Interessante como uma muralha mastodôntica destas, feita com lajes sepulcrais romanas para a inexpugnabilidade, nunca teve oportunidade de exercer os seus desígnios. Ou seja, foi uma muralha que ficou sempre à espera de que viessem medir forças com ela quando, tudo o que veio, foi o Tempo das eras e depois viemos nós, os turistas curiosos que a levam em fotos e recuerdos que acabarão na montra do frigorífico.
Aqui nasceu Teresa de Jesus, santa e doutora da Igreja, e tudo em Ávila gira em torno dessa santidade enclausurada pelas muralhas e cultuada dentro da pedra fria e dura da catedral.
Se me impressionei? Sim, completamente. Se me encantei? Sim, pelo tempo que aqui passei, pelo testemunho presencial da grandiosidade da pedra que oprime com o peso de cíclope ou pelos momentos de descanso na Plaza Mayor. Agora, encanto, encanto não sei...
Gostei do momento pelo que o momento significou de oportunidade e de companhia e isso é o inolvidável que daqui levo.

18 de maio de 2017

A melhor vista da Segóvia

A melhor vista de Segóvia é que se tem do Alcazar. Chega-se e há algo de andaluz ainda que se esteja em Castela-Leão. Lembrei-me de Granada, os picos cobertos de neve, as muralhas da cidade. Segóvia é uma jóia merecidamente património mundial. Do Alcazar, a catedral comanda a cidade e o bairro judeu que desce até às muralhas dão-lhe esse ar de jóia.
Ficaria mais tempo naquela contemplação de obra humana misturada na paisagem natural. No entretanto, a mente levou-me à Mãe e ao entendimento de porque é que Ela sempre me disse amar Segóvia. Nunca aqui tinha vindo e, sem o esperar, encontrei-me com a Mãe e comprovei verdades. Segóvia é linda e aqui deixei um pouco do coração e da alma...

15 de maio de 2017

Segóvia

Segóvia é o Aqueduto. E o Aqueduto é que faz de Segóvia património mundial UNESCO. está absurdamente bem preservado. Domina a cidade que cresceu à sua sombra e que tem vivido por e por causa dele.
Contudo, Segóvia é muito mais. É uma jóia de cidade. Não tem a monumentalidade estonteante de Salamanca onde nos perdemos no excesso dessa monumentalidade que nos diminui à escala ínfima boqueaberta e, às tantas, nos deixa saturados pelo contínuo gigantismo monumental que perpetuamente, a cada, passo, se abre e desenrola a nossos olhos. Segóvia tem uma escala mais humana. é mais leve, quiçá se por contágio com este aqueduto que parece pairar contra o céu. E Segóvia tem a paisagem envolvente e as neves das Montanhas de Guadarrama que tanto alimentaram o Aqueduto.
E tem uma catedral sem pretensões megalómanas, leve também como a cidade, como o aqueduto e como as montanhas vestidas de neve.
Um jóia bem no coração desta Península a que chamamos casa ibérica.

11 de maio de 2017

As revisitações de Santa Teresa

Vir a Alba de Tormes não é só vir a uma vila pitoresca de Castela-Léon, não é só vir ao local de nascimento da Casa Ducal de Alba, é vir a um local onde tudo se torna diminuto face ao que aqui ocorreu a 4 de Outubro de 1582. Essa data e essa ocorrência definem hoje Alba de Tormes.
Aqui entregou Santa Teresa de Ávila, santa e doutora da Igreja, a sua alma ao Criador a quem se deu em vida e na vida além-morte. Tudo aqui gira em torno de Santa Teresa e dos seus últimos dias. Aqui descansaria em paz o seu corpo se os Homens tal deixassem. Esquartejada em morte, o coração e um braço estão expostos em relicários mórbidos para contemplação pública. Não pago para ver. Entro na igreja para prestar respeito. A morbidez não me inspira à oração. Fá-lo-ei noutra igreja onde entro e há luz e despojamento e não a penumbra opressiva desta em que supostamente descansa uma santa entre as santas da Igreja. Ao partir não deixo de pensar no que sentiria Teresa, a freira, a mulher desta terra ao saber o que lhe estava guardado nesta vida pós-vida.

8 de maio de 2017

Alba de Tormes

Alba de Tormes é daquelas vilas tipicamente espanholas, daquele centro majéstico e monumental a que associamos o nascimento castelhano. Torres sineiras, torretes e torreões onde pontuam ninhos habitados por cegonhas fazem contraste contra o céu. apetece que os passos nos façam perder por entre ruas estreitas e mais estreitas vielas.
Estamos no berço da Casa de Alba, essa que conhecemos das revistas cor-de-rosa por causa da sua duquesa excêntrica mas que é um dos grandes portentos aristocratas num país de monarquia. A Casa vive mas aqui em alba d eTormes, o seu castelo ancestral há muito que foi destruído, restando apenas uma torre grossa e forte que decidiu não sucumbir às Invasões Francesas e aos estragos de Tempo e Gente. As vertigens crónicas impedem-me de subir mais do que cinco degraus rumo à ascensão que promete vistas magníficas sobre o Rio Tormes e as montanhas cobertas de neve à distância. Não faz mal.
Desço à Plaza Mayor, que terra que é terra aqui nesta terra tem de ter sempre uma praça-mor e maior, e roubo um intervalo de tempo para apreciar o passo lento de uma vila pitoresca enquanto tomo um "café solo" na esplanada da Casa Fidel. Olé, España!

4 de maio de 2017

Semana Santa em Salamanca

A procissão veio inesperada. Estando aqui na Semana Santa e sabendo da devoção espanhola por esta quadra, não era bem por ela que aqui estava. Só que, estando aqui, é impossível escapar. O mar de gente é monumental. O ambiente da procissão lúgubre, e a palavra é um claro eufemismo. Chega a arrepiar a insistência na penitência, no sofrimento martirizado e martirizador.
Católica, romana, apostólica, não deixo, paradoxalmente, de observar na distância da terceira pessoa. Aquele Jesus tão ensaguentado do chicote, a cruz tão pesada e a mortificação da carne doem-me na alma e nos olhos que vêem. A ressurreição parece-me ausente deste culto da morte pelo suplício. Creio na ressurreição, não na morte. Perguntar-me-ão se quero os horários das procissões diárias desta Semana. Não. Recolho-me em pensamentos de Vida, de renovação e perpétuas circularidades que no-la trazem. Creio em fénixes e Cristos ressurectos. A morte só pode ter importância como Vida.
Detenho-me na procissão. Respeito e observo. E porque respeito e observo, recolho-me e suspendo-me na fé. Uma procissão destas à sombra desta catedral e neste espaço de pedras tão antigas convoca o Divino e o transcendente. É uma experiência de Vida, uma experiência na vida...